642 coisas sobre as quais escrever - #1

18. Comece com: "não parecia muito naquele tempo que..."
Não parecia muito naquele tempo que delirei. Quem nunca passou por isso? Quanta bobagem! Sirenes. Luzes brancas, azuis e vermelhas. Homens com uma barriga saliente, farelos de rosquinhas na gravata, roupa formal azul escuro e expressões de "Quem me dera ter ido para a faculdade de Arqueologia". Muitos deles. Nenhum queria estar ali. Eu não queria estar ali.

Como ia dizendo, não parecia muito naquele tempo que delirei, mas todos fazem parecer que foi sim muito, estou quase acreditando que sim, não foi "um pouco", mas um "exageradamente muito". Dane-se.

-Poderia nos contar o motivo de tudo? - O mais gordo me encarou.
-Não foi nada.
-Você matou um homem.
-Foi um pequeno acidente. 
-Incluindo a parte em que o coração dele sumiu do lugar onde deveria estar? - Me encarou.
-Não parecia muito. Ele não gritou.
-Você o tinha sufocado com a própria meia!
-Bem, roxo é uma cor linda. Combinou tanto com o sorriso dele. Ele parecia sorrir como nunca...
-Receio dizer que nunca é a palavra certa para definir o tempo de qualquer ação que aquele homem poderá fazer de hoje em diante. - Olhou para as minhas grossas e prateadas pulseiras que uniam perfeitamente uma mão à outra. Eu não me lembro onde nem quando as comprei, mas ele parece admirá-las. Talvez esteja na moda. Todos ali tinha mais duas penduradas no cinto.
-Eu juro, ele estava sorrindo. Sorriu como se o dia ou a noite dependessem daquele sorriso.
-Você o obrigou. Ameaçou a mãe dele. E o pior, faz 23 anos que ela morreu!
-Ele nunca teve uma boa memória. - sorri - Datas de aniversário, dia dos namorados... Ele sempre esquecia. - Parei de sorrir - Ele quase esqueceu que me amava. Mas eu o ajudei. Lembrei à ele, como sempre fiz com tudo: datas de aniversário, dia dos namorados...
-Vamos acabar com isso. Você é louca. - Falou enquanto manuseava desastradamente algo parecido com um rádio comunicador. 
-Qual pessoa que ama não é um pouco louca?! - Falei um pouco mais alto. - Por que as pessoas me julgam? Não tenho culpa se vocês nunca foram corajosos o suficiente para lutarem por um amor! Eu sei que quando alguém parece amá-los um pouco menos você apenas abaixam as cabeças e choram por dias em seus quartos como se nenhum sofrimento no mundo fosse maior que os seus! - Gritei. Todos me olhavam. Todos sabiam que era verdade. Eu sabia. - Mas eu não. Eu tive coragem!  Ele me ama, eu apenas o lembrei disso. Meu amor não parecia muito, mas eu o fiz enxerg...
-Chega. - Em um segundo três homens vestidos de azul me seguraram. Quis dizer a eles que eu amo azul. Mas não tive tempo. 
[...]

O lugar em que eu estou agora é fechado. As pessoas não vestem mais azul, vestem branco. Eu não gosto de branco, mas uso um grande e apertado casaco branco que me deixa bem espremida, com os braços junto ao corpo. Tenho que lembrá-los que eu amo azul e que tudo aqui parece um pouco pequeno demais. Talvez se eu lembrá-los do azul, eles sorriam. Sorriam como ele sorriu, apenas para mim.

"Imagine que você recebe uma lista de 642 coisas sobre as quais escrever. Este é o nome deste projeto famoso na web. Imagine que eu sou você, então eu terei que escrever (de forma aleatória, prefiro) sobre 642 coisas belas, estranhas, engraçadas, tristes e bizarras. Talvez eu consiga, talvez não. Mas não podem dizer que eu não tentei." | Grupo no Facebook
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Beijos,
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4 comentários

  1. Wow! Eu gostei DE MAIS do seu texto! Mostrei para a minha mãe, e ela disse que você tem muito talento <3
    PS: Eu já te coloquei como afiliada okay? :)
    Beeijos!

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  2. NOSSA, JUH. ESTE TEXTO FICOU MUITO, MUITO TOP.
    Meus parabéns! Ah, eu fiquei muito feliz pela reabertura do Entretanto! O layout daqui está muito, muito lindo! <3
    Beijooos!

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